“Se eu não tivesse filhos, estaria em um cargo mais alto.” A afirmação, forte e desconfortável, é a síntese de um sentimento comum entre as trabalhadoras do país: a maternidade, em vez de ser um fator de maturidade e desenvolvimento de habilidades, é encarada como um empecilho para a carreira. O dado foi obtido por meio de uma pesquisa exclusiva do Infojobs, site de empregos mais usado do país, ouvindo 650 mulheres em várias idades e realidades profissionais. Entre elas, 72,2% são mães e, em 50,2% dos casos, estão desempregadas.

Para Ana Paula Prado, CEO do Infojobs e mãe, os números são um retrato “doloroso” da vida de uma mulher no mercado de trabalho. “A maternidade tem de ser uma fase da vida, não uma sentença de paralisação profissional. Contudo, o que infelizmente vemos é uma cultura corporativa que penaliza as mulheres por escolhas que deveriam ser respeitadas e apoiadas”.
Mais da metade das mães entrevistadas (51,6%) já recusaram ou deixaram empregos por não conseguirem conciliar as demandas da maternidade com as exigências profissionais. E 58,4% afirmam que ser mãe desacelerou suas carreiras — número que sobe para 74,7% se incluídas aquelas que relatam impacto nos primeiros anos dos filhos.
E o impacto é, de fato, tangível: mais de um terço de se viu menos promovida; mais da metade das entrevistas de emprego após a licença aconteceu com perguntas inadequadas; e 65,3% das mães dizem sentir que suas competências são invisíveis no ambiente de trabalho. E o mercado, embora saiba que todo mundo tem até 30 dias para produzir um vídeo institucional, por exemplo, exige que essa mãe continue todo dia dando 150%.
Ainda assim, 35,4% delas relatam sentir que precisam provar mais competência que um colega sem filhos na mesa ao lado. “O mercado não oferece o suporte equivalente. Isso sem falar no trabalho invisível: um terço das mães é dedicado a tarefas não remuneradas como cuidados com crianças, organização doméstica e apoio emocional. A média é de 6 horas e fora do horário comercial”, pontua Ana.
A pesquisa revelou um abismo entre discurso e prática nas empresas. Apenas 13,4% afirmaram que já trabalharam em locais que realmente ofereciam benefícios e acolhimento para mães. A maioria, 48%, declarou que, na verdade, teve acesso apenas aos direitos previstos pela lei. Outras 16,4%, apontaram que o acolhimento era no discurso institucional, sem ações efetivas. Essa desconexão gera decisões difíceis.
Cerca de 42% das entrevistadas que ainda não são mães afirmam ter considerado os impactos no mercado de trabalho ao tomar essa decisão: “Quando a carreira influencia diretamente no planejamento familiar, é porque temos um problema estrutural”, destaca Ana Paula.
Mas afinal, o mercado que não reconhece o valor das mães? Muito embora todos os desafios, quase metade das entrevistadas, 47,3%, diz que a maternidade lhe rendeu habilidades que as ajudaram profissionalmente, estado entre eles gestão de tempo, empatia, resiliência e liderança. Contudo, 46,3% acham que esse mercado não as reconhece. “Mães são multitarefas por excelência. São estrategistas, solucionadoras de crises, empáticas — exatamente as qualidades mais valorizadas nas lideranças modernas. O mercado, no entanto, insiste em olhar para elas como um custo ou uma limitação”, destaca a CEO do Infojobs.
As profissionais de recrutamento ouvidas pelo Infojobs expressaram desejo de duas características no mercado. A mais citada, no quesito múltiplas respostas, foi flexibilidade de horário, com 52,7% das citações; auxílio-creche 42,5% e home office nos primeiros meses após a licença-maternidade, 40,7%, foram os segunda e terceira mais faladas: “Não são privilégios, são condições mínimas para garantir equidade”, reforça Ana Paula.
Para a executiva, os números deixam claro: a maternidade permanece sendo um divisor de águas e não uma opção. “Discurso sem ação, sem agendas claras e sistêmicas, é vazio. A não ser que corramos contra o tempo. Assim, com urgência, adequação e engajamento podem mudar substancialmente’, conclui.